Depois de dias de ausência deste blogue acho que é altura de o estrear com umas palavritas do nosso "querido" Presidente da República (PR). Nada melhor para quebrar um logo silêncio hã?
O Nosso PR esteve no S.João e decidiu dar uma martelada no pessoal dizendo em declarações aos jornalistas, e passo a transcrever:“Eu espero que o barco aguente e, por isso, tenho aconselhado a que não corram rapidamente de um lado para o outro, para que não aconteça qualquer acidente. No dia de hoje temos que fazer todo o possível para que tudo vá no bom sentido, para que o barco chegue a bom porto. E é isso também que Portugal precisa”.
Será que alguma alminha caridosa é capaz de o avisar que este barco já anda furado há muito? Será que alguém é capaz de lhe dizer que é um pouco difícil remar um barco furado! É que é isso que a maioria dos portugueses tem feito estoicamente e de bico calado! A fazer valer o ditado "come e não bufes!"
Agora a sério, de que acidente é que o homem fala? De ficarmos encalhados? Isso parece que também já nos aconteceu!
Estamos a remar um barco furado em cima de um banco de areia!
Não correr de um lado para o outro? Hummm.... talvez seja melhor aceitar o conselho do nosso PM e correr é daqui para fora!!!
É dia 25 de Abril, dia da liberdade. Pelo menos ainda simboliza a liberdade, e ainda festejamos e gozamos esse dia, já que o dia da restauração da independência e implantação da republica tem a sina de cair no esquecimento.
Mas vamos esmiuçar o dia da liberdade, que foi o dia em que nos livrámos de uma ditadura e entrámos novamente em democracia. O inicio das conquista de direitos que dantes não nos eram atribuídos. Mas estaremos mesmo em liberdade total? Que direitos ganhámos, que direitos estamos a perder ou não estaremos a fazer uso.
Ganhámos o direito ao voto, direito esse que andamos a fazer questão em não fazer uso dele. É triste quando o numero de abstenção é maior que os de votantes.
Ganhámos direito a subsídios de férias e natal para agora nos roubarem.
Ganhámos direito a horas extra para agora ser substituído por bancos de horas (trabalho gratuito).
Ganhámos direito a negociar acordos de empresa, contratações colectivas, protecção ao trabalhador para agora ser substituído por uma politica de despedimento livre.
Ganhámos o direito de nos manifestar, gritar, falar, opinar, mas temos mesmo o direito de sermos ouvidos?
Sobre as opções de lutar ou não lutar, manifestar ou não, fazer ou não fazer greve, reivindicar ou não melhores condições são opções de cada um, que poderei não concordar mas respeito. Mas quando alguém me diz "já viste o corte dos subsídios de férias e Natal afinal vão ser até 2015", quando nada fez para que isso não acontecesse, claro que me salta a tampa. O povo só tem o que merece, os políticos que merece, as medidas que merece. Se na altura de escolher os representantes, estas recaem sempre nos mesmos estão à espera do quê. Se a cada medida que nos impõem sob pretexto da crise e da troika nos resignamos e baixamos as orelhas é porque até estamos bem, e claro que maiores medidas tomarão ao ver que este povo aceita tudo.
Temos o que merecemos, somos um povo apático adormecido e que espera que alguém faça algo por ele e nada faz por si mesmo. Um povo que viveu subjugado a uma ditadura durante 40 anos e que só se libertou dela, não pela força de vontade do povo mas porque apareceram uns militares corajosos para mudar por nós. E hoje quase 37 anos depois do 25 de Abril, o mesmo povo assiste apático à retirada de direito, à redução salarial, quer seja pela retirada de subsídios quer pela criação de bancos de horas, à espera que venha algum super-herói evitar que tal aconteça.
Povo, povo, não lhes baixes as calças para eles te lixarem e arregaça as mangas por um país melhor.
Passou um semana turbulenta. Turbulenta em notícias e em reações quentes.
A greve passou e não consegui dizer nada sobre ela, sem saber também o que pensar e onde me colocar. Ouvi, das mesmas pessoas que nunca fizeram greve, "desculparem-se" que não faziam greve por falta de dinheiro, a resposta que invariavelmente recebem é "Eu tenho muito dinheiro e por isso quando faço greve é porque já não sei o que lhe fazer"
Primeiro estou fartinha destas desculpas, não fazem greve ponto. Ninguém precisa de se desculpar, e não precisam de lembrar que não vamos receber esse dia. Embora eu saiba que para muitos, mas muitos dos que até iam reagindo, esse dia sem receber iria sair mesmo muito caro.
Segundo, não consegui mesmo posicionar-me em relação a esta greve. Não concordo com o raio do acordo bipartido, não concordo com alguns direitos adquiridos atirados para o charco e não concordo que paguem todos pelos abusos de alguns.
Terceiro, entristece-me ver que muitos não se identificam com as forças sindicais. Se não fossem os sindicatos já teriam certamente feito picadinho dos trabalhadores, mas alguma coisa está a falhar, algo que não consigo identificar com precisão, mas está lá, a moer, a desgastar as forças sindicais que mais parecem, desculpem-se a analogia um "F. Clube do Porto" e um "S. L. Benfica", com os adeptos a puxarem cada um para seu lado em campos opostos.
Enquanto as Centrais sindicais não se unirem talvez não conseguirão unir um povo desfeito, esmigalhado e sem presença de espírito para reagir. Fartos de greves soltas vendo que nada do que fazem trará mudança. OK! Mas então o que fazer?
Muitos respondem-me que não vale a pena fazer nada porque "eles" fazem o que querem. Pois fazem. E porquê? Porque nós deixamos, porque o povo não está unido e a última vez que esteve foi há 38 anos perdidos na memória.
Odiei as imagens de vi da carga policial aos manifestantes que, arruaceiros ou não, não deveriam ser levados a ferro e fogo.
Desde quando a violência é resposta?
Quando via as imagens pareciam inacreditáveis, parecia-me que não eram em Portugal, dito País de brandos costumes. Pois é! Mas as coisas não estão brandas.
Apeteceu-me ter a força e o jeito para organizar manifestações. Mas não uma manifestação qualquer. Uma manifestação do povo, sem centrais sindicais e sem forças políticas de oposição. Sem faltas a trabalho, porque sei que muitos não podem, num fim de semana em que as pessoas deixassem por um dia de se sentirem sós e passassem a sentir-se parte de um povo que está a sofrer, isto porque alguém andou a abrir as mãos e a gerir mal a esperança que lhes depositamos com confiança. Num dia em que as pessoas deixassem de ser abstémias, como tem sido hábito em altura de eleições. Num dia em que nos sentíssemos unidos. Pode ser que não possamos fazer nada, mas estamos juntos nesse nada que não podemos fazer!
Uma "manifestação do silêncio", o silêncio em que estamos, o silêncio que achamos que temos que estar, por medo, coagidos, talvez porque sentimos que as forças se estão a esvair, porque se pensa que não vale a pena. Sem marchas, sem palavras, sem entrevistas, com as pessoas sentadas e nos pontos principais de cada capital de Distrito, com as pessoas a fazerem o que fazem todos os dias, e que se tem vindo a fazer nestes anos todos, a estarem simplesmente em silêncio e com o olhar perdido na esperança, na esperança que isto passe depressa e que ainda estejamos de pé no fim!
Um silêncio por uma Europa sem rumo certo ou com um rumo perdido algures na força do capitalismo.
Com os calos a doer, mas em silêncio porque talvez assim ouçam melhor a força que ele tem!
Pode ser que alguém com mais força do que eu consiga motivar um povo, consiga unir pelo silêncio o que esta desfeito por palavras.
O português é um povo sonâmbulo. Caminha mas parece que está sempre a dormir. Podem fazer a maior das atrocidades ao lado dele mas desde que não lhe afecte nada faz, mas queixa-se quando lhe toca e fica ofendido por ninguém o ajudar. É um povo que espera que lutem por ele, sem reacção, sem dinamismo para tentar mudar o rumo das coisas, mas fica invejoso quando outros conseguem, mas contente se a vitória dos outros lhe for beneficiar também, mesmo não tendo mexido uma palha para a merecer. É um povo que espera que os sindicatos lutem por ele, esquecendo-se que o sindicato não é uma estrutura são os trabalhadores, sem nada fazer para dar força ao sindicato. É um povo que tomou por adquirido os seus direitos e não luta por os manter. É um povo que se queixa do poder, do governo, do presidente, mas não usa as armas que a democracia lhes deu, o direito a uma greve, a uma manifestação, os outros que façam e se manifestem. É um povo que se queixa do Estado mas que se esquece que o Estado somos nós, o povo, e que além das armas que referi atrás temos outra, o voto. Somos nós que os elegemos, somos nós que os tiramos de lá. Somos um povo que elege os seus governantes, mas que depois ninguém assume o seu voto, principalmente o seu erro. Somos um povo onde muitos ainda não perceberam onde está o poder.
É nas alturas de aperto que se vê a solidariedade do povo português. Com Timor houve, manifestações, cordões humanos, minutos de silencio. Com casos de doenças raras ou muito graves, o português dá sangue, faz analises, inscreve num banco de dadores de medula óssea, como aconteceu recentemente no caso do filho do Carlos Martins. Enviamos roupas para a Madeira, e fizemos chamadas de valor acrescentado para poder ajudá-los a quando das inundações. Enviamos livro para África para ajudar a educação nas ex-colónias. Agora há um casal que está a passar muitas dificuldades com esta crise. Ao saber desta situação, o casal Silva já recebeu à porta de casa o apoio e solidariedade de muitos portugueses, que lá deixaram alguma ajuda monetária, cereais e outros bens de primeira necessidade. Digam lá se somos ou não um povo solidário.